Setembro amarelo e um depoimento pessoal

Decidi que farei minha parte no Setembro Amarelo e ela começa aqui e agora. O assunto “depressão” é muito sério e ela pode, sim, levar ao suicídio se a pessoa não cuidar da saúde mental e emocional. Além disso, é muito importante ter pessoas ao lado que possam dar apoio e amparo. E essas pessoas não precisam ser familiares (porque sabemos que, nem sempre, o sangue conta).

Hoje, vou contar como eu, por muito pouco, não entrei em depressão profunda e o que fiz pra me salvar desse mar turbulento e que é implacável quando nele você se vê perdida(o). Não, não é frescura. Nem falta do que fazer. Uma das piores coisas que um ser humano pode fazer é minimizar a dor do outro, então, vamos começar por aí. Você não sabe quando precisará que alguém entenda sua dor e se solidarize com ela; que tal começar a se solidarizar com a dor dos outros?

Ao longo da minha vida, sempre fui uma pessoa muitíssimo emocional. Era fácil me magoar porque, digamos, não tive uma boa base na construção da minha autoestima (a sociedade nunca ajudou e em casa os exemplos não foram dos melhores). Racionalizar sentimentos foi algo que aprendi muito recentemente e isso, graças a Deus (e à minha terapeuta), tem sido um super adianto na minha saúde emocional e na construção da “nova eu”.

COMO A GENTE SE DÁ CONTA DE UMA DEPRESSÃO IMINENTE?

A gente nunca acha que está tão triste a ponto de se deprimir. Eu, principalmente nos últimos anos, tinha meus momentos “down“, mas logo algo legal surgia e era minha válvula de escape para superar esse momento. Mas quando não cuidamos do mental e do emocional, essas soluções paliativas acabam por não ser suficientes algum dia.

De repente, um acontecimento se torna um gatilho fortíssimo pra que você sinta uma tristeza que, simplesmente, não passa. Mesmo usando soluções paliativas. Mesmo tentando fazer o que sempre f,ez pra superar. Um emocional mal trabalhado vira uma bola de neve que cresce, cresce, cresce… confusa e bagunçada e chega em um tamanho que não é mais possível segurar ou esconder.

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Foi o que aconteceu comigo esse ano. Um ocorrido que me pegou desprevenida em um momento já frágil (quem não está fragilizada(o) mediante tudo que acontece no mundo hoje, que atire a primeira pedra) e, de repente, eu me vi nesse mar revolto, sem salvação e sem soluções. Eu caí nele. E quando você está nesse mar, é simplesmente impossível enxergar motivações nas coisas. O que você amava, sente que já não ama tanto; se questiona se tudo que faz é realmente importante. Questiona se VOCÊ é realmente importante para alguém. Se realmente deve continuar e por que… e isso, meus caros, são pensamentos depressivos.

É PRECISO ADMITIR AS PRÓPRIAS CONDIÇÕES

O que me “salvou” desse mar revolto no qual, felizmente, fiquei por pouco tempo (relativamente) foi, em primeiro lugar, admitir que eu não estava bem – o que é difícil, ao menos pra mim, que sempre quis ser auto-suficiente. Tive que encarar os fatos de que não ia ser dessa vez que eu conseguiria superar algo sozinha. A “super Marcéli” estava derrotada, cansada, desmotivada. Fraca, mesmo. Em todos os sentidos. Porque se sentir deprimida é como uma fraqueza involuntária, que vem da mente e do coração e explode pra fora, invade o corpo todo. É como se tivessem amarrado você a um caminhão com uma corda de aço. Você simplesmente não consegue sair do lugar. Se sente estática; presa. O primeiro passo foi reconhecer isso.

Em segundo lugar, tive que admitir que eu precisava de ajuda, porque, dessa vez, soluções paliativas não estavam sendo o bastante e eu mesma não conseguiria sozinha. Tive que dizer pra mim mesma e pra quem estava ao meu lado que precisaria de ajuda profissional. Na verdade, todo mundo precisa – e aquele era meu momento de precisar. E tudo bem, sabe? A parte boa é que as pessoas que importavam se preocuparam e me deram todo apoio possível, dentro do que estava ao seu alcance. Apoiar alguém num momento como esse pode fazer toda diferença do mundo. Porque a pior coisa é você se ver em meio ao mar revolto, acorrentada a um caminhão e não enxergar ninguém por perto para “gritar” por socorro.

Procurei a terapia, algo que sempre me falaram que era inútil, que era “coisa de gente fraca que não conseguia resolver os próprios problemas”. Infelizmente, vivemos em uma sociedade doente, que nos desencoraja de crescermos e de nos conhecermos. Porque isso tira o poder de quem manipula. Tira o poder de quem quer que acreditemos que temos que ser quem o outro quer que sejamos. Tira o poder de quem violenta mental e emocionalmente. Porque se conhecer é algo que nos dá autonomia.

Desde que faço terapia – comecei tem em torno de 2 meses, com uma psicanalista -, tem sido a melhor coisa que pude fazer por mim. Algo que quase ninguém havia me encorajado a fazer antes. Tenho entendido e tratado minhas emoções de dentro para fora, entendido o que me fez ser quem eu sou e “consertar” os estragos que foram feitos aqui dentro, muitas vezes, por outras pessoas. Por pessoas mais próximas do que se pode imaginar. Tenho revisto meus caminhos turbulentos até aqui e trabalhado para ressignificá-los. Olhar pra trás e enxergar as sombras e os demônios é saudável pra evita-los no presente – ou, ao menos, para lidar melhor com eles.

É fácil? Nem um pouco. Porque a terapia faz você se dar conta de coisas que nunca imaginaria sozinha, tanto em relação a você, quanto em relação a outras pessoas. E é doloroso encarar muitos fatos. Mas é bom. Porque quando nos conhecemos a fundo, quando estudamos nossa história e tudo que nos levou até aqui, aprendemos a lidar com nossas próprias emoções e, principalmente, a saber o que interiorizamos e o que não. Aprendemos a nos perdoar; a perdoar os outros também, tudo no seu tempo. Sentimos com vontade e colocamos aquela emoção tóxica para fora. Aprendemos a reconhecer o lado positivo das coisas, também…

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Aprendemos o que é nosso lixo emocional e o que é lixo emocional dos outros – se separamos isso. Racionalizamos; ressignificamos. Hoje, de certa forma, sou grata por esse gatilho. Talvez sem ele eu não teria cuidado de mim como cuido hoje. E talvez não tivesse procurado a ajuda que me tirou do mar turbulento em que entrei. Talvez, sem esse gatilho, eu tivesse demorado meses, ou até anos, pra tomar essa decisão e me conhecer direito, profundamente.

TENTAR AGRADAR ALGUÉM É SE MATAR AOS POUCOS

Uma das coisas que aprendi e que quero levar pro resto da minha vida e, quem sabe, para as próximas encarnações, é que tentar agradar ao outro é um veneno que escolhemos tomar, de pouquinho em pouquinho. Sem que percebamos, esse veneno toma conta do nosso corpo e amortece todos os sentimentos que temos por nós mesmas. Quando esperamos agradar, matamos nossa dignidade aos poucos.

Nós nunca devemos escolher fazer alguém feliz (seja esse alguém um cônjuge, amigo ou familiar) se isso significar nossa infelicidade. Não é egoísmo; é amor próprio e saúde mental. Ninguém melhor que nós pode cuidar de nós mesmas(os) e, pra isso, será preciso dizer “não” para os outros. Pode parecer difícil entender o que digo, assim, mas se você se der uma chance de se autoconhecer e trabalhar seus sentimentos, você entenderá na prática. Se você ainda não se cuida, comece agora. Nunca é tarde.

No mais, meu recado e contribuição aqui pra você é: não tenha medo de admitir que está doente. Que está fraca(o) ou com medo. Não tenha vergonha de pedir ajuda, nem de procurar por ela. Principalmente uma ajuda profissional, que é a mais indicada nesses momentos. Tratar a ferida vai fazê-la arder no começo, mas, vai te curar de uma maneira genuína. E essa dor é passageira. Sua vida e o amor que você pode sentir por si mesma(o) é muito maior do que qualquer dor. Acredite.

MAIS: Como virei vegetariana no final de 2019

Beijos e abraços sinceros,

Marcéli.

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Editorial para a @calicorpus: Moda Praia Retrô

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