Desabafos e confissões, talvez inesperados, de toda uma vida, à pessoa que me gerou e me criou.

Não leia se não estiver emocionalmente estruturado(a). Contém relatos fortes que podem causar gatilhos.

carta para minha mãe | relação mãe e filha | relacionamento tóxico | abuso emocional | relação familiar

Nunca pensei que este momento chegaria e, na verdade, nem sei por onde começar. São tantas memórias e tantas sequelas emocionais deixadas pelo caminho, com certeza não intencionalmente causadas, mas, que criaram feridas profundas e que hoje eu trato a fim de não repetir seus erros.

Sim, erros. Porque, ao contrário do que você me fez crer a vida inteira, você não é perfeita. É humana, cheia de defeitos, de erros, de fraquezas. Muitas! Eu entendo que, talvez, tenha lhe faltado algumas coisas na sua criação e é aquela história: só podemos dar o que temos.

Porque quando tentamos dar o que não temos… podemos estrapolar na dose. Eu sei que você deu seu melhor, que fez o que podia e o que sabia, com boas intenções. Mas está na hora de reconhecer sua parcela de erros e de culpa em uma história que, talvez, tenha sido muito mais dramática e desastrosa que o necessário. E nessa história tem muitos errados, todos culpados – mas nenhum vilão, nem mocinho. Porque isso não existe. Infelizmente você pintou muitos vilões pra mim, plantando uma raiva, um ódio e uma revolta que foram alimentados, injustamente, ao longo de anos. Será que valeu a pena?

Felizmente, eu aprendi que todos temos sombras e luz dentro de nós e que ganha aquele que mais alimentarmos. E, sinceramente? É com profundo pesar que eu lamento dizer: nos últimos anos você só tem alimentado sombras dentro de si. E o pior: não percebe. Ou não quer perceber.

O que você fez com o que fizeram de você?? Quantos limões a vida te deu e, ao invés de você fazer uma limonada ou um mousse, você os deixou apodrecer e os jogou fora. Frustrações e perdas temos todos. Mas, acredito eu, que o grande lance da vida é aprender com os revezes e seguir do jeito que dá, da melhor forma possível, sem permitir que o veneno jogado por outros nos corroam e nos transforme no mal que nos foi causado ou pior que ele.

Eu te vi lutar muito, sim. Mas, hoje, eu vejo que essa luta era para tentar manter as coisas no rumo que você achava que elas tinham que ter e não no rumo que, talvez, as coisas deveriam ir. É duro, porém necessário, olhar pra trás e admitir que muito do que você me ensinou foi sobre superproteção – algo que, na minha opinião, não é positivo; me ensinou sobre falsidade, traições, inveja, mágoas e, de certa forma, vingança.

Me ensinou que ninguém era bom ou boa o bastante para ser meu namorado ou minha amiga e que a única pessoa do mundo em quem eu podia e devia confiar era você, porque “ninguém prestava”; mas, sozinha e contra sua vontade – sempre contrariada em me ver “voar do ninho”, como se fosse um crime -, eu descobri que existem pessoas boas sim e que querem o meu bem, além de você. Eu olho pra trás e vejo que, se dependesse da sua aprovação, eu teria deixado de viver e de conhecer muita gente que hoje julgo importante na minha vida. Muito mais do que deixei.

Você não é a única pessoa que quer o meu bem e, na realidade, você não fez lá muito bem emocionalmente pra mim ao longo dos anos, desde o término do seu relacionamento. Essa é uma verdade incontestável. Foi traumático para todos e, sim, meu pai errou. Enxergar seus próprios erros não é sinônimo de coroá-lo como o correto da história. E, por um bom tempo, você me usou de arma contra ele, algo que hoje tem nome e, inclusive, é crime: chama-se alienação parental. Você não soube lidar com o problema que surgiu na sua relação com ele e, por consequência, não me ensinou a lidar também. Passei muito tempo odiando-o e enxergando-o como um vilão horrível e cruel. Só que ele não é esse monstro que outrora você pintou. De verdade: você acha mesmo que essa atitude foi correta?

Tudo que aprendi com você sobre relacionamento foi que amar era possuir; controlar; sufocar; era se revoltar irracionalmente, quando as coisas não saíam como se queria. E por muito tempo eu reproduzi esse comportamento tóxico nos meus relacionamentos: amorosos, profissionais, pessoais e até entre familiares (aqueles os quais você desaprovava eu me relacionar, porque “ninguém prestava”).

Isso te torna uma vilã? Não. Te torna apenas imatura para lidar com os problemas; você foi imatura naquela época e continua sendo. É como se, pra você, o tempo não tivesse passado, porque você resume sua vida, de lá pra cá, a essa perda e a lamenta diariamente. E, agora, comigo morando mais longe, age como se tivesse me perdido também. E continua me sufocando com seu comportamento abusivo. Porque isso também tem nome: e se chama abuso emocional.

Você sempre tem um comentário dramático ou deprimente para fazer, não importa qual seja o assunto; se não é pra falar de alguma dor sua, fala sobre alguma notícia ruim que passou na TV (a qual eu já repeti que não quero ouvir); se não é pra se lamentar da falta de dinheiro, se lamenta que o Lennon não passou a noite bem. Ou então fala das coisas que estão quebradas na sua casa e que precisam de conserto; você NUNCA está bem. E parece procurar motivos para não estar. De 30 conversas, em 29 você está reclamando de algo ou se vitimizando por algo. Se eu tento puxar um assunto banal, você faz questão de revertê-lo para algum trauma seu do passado.

É assim por mensagem, é assim no ao vivo, quando estou aí. É tudo sempre pesaroso, triste, lamentável. Essa é a realidade que eu enxergo e que você me mostra com esse proceder de anos que se estende. Será que eu posso chamar isso de um relacionamento saudável com minha mãe? Aliás: será que posso chamar isso de relacionamento?

Com certeza existe algo emocional e psíquico a ser tratado aí, o que você se nega a fazer, pois diz que o problema “é dinheiro”. Dinheiro é bom sim e ajuda em muita coisa. Mas, eu arrisco dizer: nem ganhando na loteria sozinha eu acredito que você conseguiria fazer bom proveito no estado emocional, mental e espiritual que você se encontra. É uma triste constatação.

O seu proceder passa a mensagem de que eu sou culpada porque não moro mais com você e, por isso, eu sou obrigada a “pagar”, ouvindo suas lamúrias intermináveis. Nenhum passo na vida que eu tenha dado para longe de você foi aprovado e apoiado por você, porque, pra você, isto era sinônimo de minha vida estar fora do seu controle – algo que é NATURAL. Pois filhos crescem. E querer controlar e manipular tudo e todos ao redor, o tempo todo, incluindo filhos, não deveria ser encarado como algo “bonito” e, sim, doentio.

Tiveram sim momentos bons, é claro. Mas, sinceramente? Hoje é isso que tem pesado para mim: as coisas desagradáveis. E não é por culpa minha, não. Como já disse uma vez a você, repito: você me teve para si. E não para o mundo, para que eu vivesse uma vida. Você queria que eu vivesse A SUA VIDA. Só que eu não posso. E não vou!

A realidade hoje é que eu sou uma mulher de 33 anos que, felizmente, segui meu caminho; procurei ajuda psicológica para tratar das minhas sequelas emocionais, algo que você também deveria fazer – e não: você não tem o controle sobre mim ou sobre minha vida. E você não tem que ter. Você já fez seu papel como mãe, que foi me parir, criar, alimentar, dar abrigo e amor, conforme você achou que deveria, e me ensinar o que sabia e o que achava correto.

E isso não significa que “você não tem mais serventia”, como você tanto gosta de bradar aos 4 ventos, no seu papel favorito de mártir. Significa que você já cumpriu seu papel e que, neste momento – ou melhor, num momento bem lá atrás, né? – você deveria cuidar de si. Porque filho bate asas, mesmo, é o curso natural da vida. E o que deveria ficar entre pais e filhos é uma relação LEVE, de carinho e consideração, por tudo que já viveram e que já fizeram um pelo outro.

Não deveria ser uma toxicidade eterna de cobranças, um poço de amarguras, como este onde você se jogou e onde gostaria de me levar, também. E eu não sou ingrata por enxergar isso; eu tenho o total direito de reconhecer que fui abusada emocionalmente e, depois de tantos anos, de me afastar sim, para me desintoxicar. Eu cheguei no meu limite e até que ele foi muito longe. Você é mãe, mas esse posto não te livra de ser uma pessoa tóxica. E é o que você tem sido.

E pode acreditar: pra mim foi e é muito doloroso chegar a essa conclusão. Outro dia você disse que “algo quebrou” dentro de você, por eu ter vomitado algumas verdades minhas; saiba que dentro de mim algo vem se quebrando há anos. Gradativamente. Eu tinha marcas e cicatrizes causadas por alguém muito mais próximo de mim do que eu podia imaginar. Eu estava quebrada, cheia de sequelas, e não conhecia uma das maiores causas. Hoje eu conheço.

Apesar de tudo, eu continuo amando você e torcendo para que você acorde dessa névoa entorpecente de amargura e de rancor, onde você se enfiou, e que possa enxergar uma vida para além desse passado sombrio ao qual você se prendeu e se resumiu por tanto tempo. Você não precisa fazer da sua vida um eterno memorial de tempos “onde era feliz e não sabia”. Você pode ser feliz agora, se você quiser. Basta escolher isso. Eu torcerei sempre para que consiga.

Com mágoa, mas com muito amor,

Marcéli.

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