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SPFW N 61: A grande maioria das pessoas não sabe quantas peças tem em seu acervo pessoal e usa o preto para gerar autoridade, ser mais discreta ou transmitir seriedade – e eu posso provar

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Acima: Marcéli Paulino após sua entrevista com Arlindo Grund, consultor de moda, jornalista e apresentador. Foto: @ge_rmoraes

É REAL e é científico: preto transmite seriedade e certa imponência com muito distanciamento e discrição. Mas antes de tocarmos nessa pauta, digamos, sensível, primeiro vamos voltar alguns anos atrás.

Era uma vez, uma garotinha que amava rosa. Ela sempre teve muita personalidade e, embora inicialmente tenha conhecido a cor por uma imposição da sociedade, ela seguiu gostando de usá-la com o passar dos anos. Na escola, era uma competição, afinal, lá para os anos 90/2000 todas as meninas amavam rosa e disputar o tom era uma tarefa árdua, tanto nas brincadeiras, quanto na escolha de uma boneca, de uma caneta que “só as reais fãs da cor” poderiam ter.

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Foto: @ge_rmoraes

Passam-se os anos e o uso do rosa continuou presente em sua vida, porque é uma cor que sempre a fez se sentir bem. Até que, um belo dia, essa garotinha resolveu entrar para o mundo da moda, já que era algo com o qual sempre se identificou também e que sonhava trabalhar.

Mas mal sabia ela que por iniciar sua jornada no mundo da moda teria seus sonhos cor de rosa (quase que literalmente) destruídos. Tudo porque jamais a davam espaço, por ser “menininha demais’, “feminina demais”, “delicada demais”. Uma frase que essa garotinha SEMPRE ouviu era: “você é muito nova e inexperiente”. Na faculdade, essa garotinha já crescida foi taxada de Penélope, mas não no sentido carinhoso, e, sim, pejorativo. Ela era odiada por se arrumar, porque para algumas pessoas isso significava “querer aparecer”. O bullying foi algo bem presente em sua trajetória, em muitos momentos e isso nem faz assim tanto tempo.

Tem mais? E como tem. Um ex professor de sua pós graduação, em Londres [seu nome era Howel], a alertou em frente a toda uma sala de aula que “ela nunca seria ninguém” porque ela, tímida e traumatizada com tanta intolerância ao seu jeito de ser, teve vergonha de se posicionar na frente de toda sala sobre um trabalho que estavam prestes a começar.

Foi dolorido para essa garotinha acabar com o sentimento de intimidação e assumir a sua real personalidade: gostar de SER simplesmente e puramente feminina, sem se deixar encolher pelos olhares, comentários e atitudes julgadoras. É impressionante como, algumas vezes, de um mesmo lado tem a pessoa que fala em liberdade de corpos e que também te aponta o dedo, só porque o seu movimento de “ser livre” não é o mesmo que o dela. É essa pessoa que pede igualdade e é essa que te trata diferente, sem educação e cortesia nenhuma, só porque “não foi com a sua cara’.

Acho que não preciso dizer que a história que acabei de contar é sobre mim mesma, preciso? E foi assim que me desprendi do preto como tábua de salvação, ou melhor, como PRISÃO da minha personalidade.

Consciente ou inconscientemente, todo mundo busca certa fuga na cor preta, de alguma maneira. Tem quem a use como escudo pra se proteger de estar muito exposta, tem quem prefira a cor pra intimidar/empoderar, para evitar a vulnerabilidade; tem quem tente emagrecer com ela, tem quem a usa como um manifesto fúnebre.

Mas, no fim das contas, toda pessoa habituada ao uso constante e exagerado da cor tem, geralmente, coisas a esconder. E foi isso que conversei com meus entrevistados da vez, pelos corredores do SPFW. A nossa pauta, da Consultoria A.D.E., envolveu as seguintes perguntas:

1- Você tem muita roupa no seu armário? E usa tudo que tem?

2- Você é adepta do preto? E qual o significado da cor pra você?

Falamos com muita gente legal e o assunto rendeu boas reflexões – além de, claro, provar a minha tese em muitos momentos. O resultado você confere lá no meu instagram, nos Reels e nos destaques do meu perfil, “spfw”.

MAIS: Os destaques de moda mais chamativos da passarela até o momento, no SPFW

Fica, pra encerrar a discussão, o sentido do MEU movimento de marca e Assinatura de Estilo: o uso do rosa e da skin ultra feminina existe pra que, assim como eu, outras mulheres sintam-se confortáveis explorando sua feminilidade sem serem subjugadas ou subestimadas por isso.

Se você é mulher e cansou de se esconder atrás de ferramentas visuais que não te representam, você está em um local seguro comigo e na minha ambiência. Que a minha história possa te inspirar hoje e sempre.

com amor,

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Marcada pela morte do modelo Tales Cotta, de 27 anos, a semana de moda paulistana teve muitos altos e baixos nessa edição.

O post da vez sobre o evento vai falar de tendências de moda, sim, mas, também de sugestões sobre melhorias que poderiam vir a ser feitas na estrutura do SPFWn47 – e são muitas!

DESFILES

Acompanhando, felizmente, uma linha cada vez mais democrática e inclusiva, as marcas da temporada fizeram bonito ao apresentar suas coleções [salvos uns detalhes em termos de estrutura de desfile]. Aqui, falarei das minhas favoritas.

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A pompa de sua moda festa migra para a linha de beachwear, com muita fenda e com muitos recortes. A cartela de cores e as estampas passeiam entre o étnico e o lúdico, tanto para eles, quanto para elas, apresentando uma moda praia que dá vontade de usar e desfilar por aí, pra fora das passarelas.

 

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Tem duas coisas que gosto muito nesta grife: uma delas, é a capacidade de criar looks andróginos muito atrativos; a outra é apostar em peças únicas que, além de muito práticas, estão super em alta no mercado atual (aka vestidos e macacões). Uma vez que vivemos correndo contra o tempo, é uma facilidade ter uma peça assim para vestir ao acordar de manhã cedo, com sono, e sem muita inspiração. Acompanhada de uma cartela de tons fechados, em um cinza chumbo, quase preto [representando o luto, talvez?], diria que essa soma de fatores formaram apostas certeiras da Beira.

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Entrando de cabeça na vibe esportiva e nos anos 80, Bobstore não economizou no brilho e nas formas retas em sua coleção para o verão 2020. O Tropicalismo, que foi tema base para a elaboração da coleção, foi ilustrado através das cores quentes e da técnica de moulage em algumas peças, apresentando um verão cheio de boas referências e fácil de usar.

 

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Gosto muito da irreverência que a marca sempre imprime em suas performances e da moda inclusiva na qual trabalha, aliando versatilidade à praticidade nas coleções – algo que, como esta, não foi diferente em suas formas retas e apelo confortável. No entanto, vale ressaltar o exagero de irreverência ao qual o(a) diretor(a) de desfile chegou, quando permitiu a platéia assistir ao desfile em pé e aglomerada. A meu ver, quando promovemos um evento, devemos pensar em como a audiência vai se sentir; tendo em vista que muitas pessoas presentes foram para registrar a coleção e não para “dar close”, e considerando que haviam pessoas de todas as idades, iclusive bem mais velhas, muitas delas já cansadas com o corre-corre da semana intensa de trabalho (quem trabalha ou já trabalhou em uma semana de moda sabe o quanto é exaustivo), a aglomeração e o zero conforto oferecidos pelo desfile passou a mensagem de falta de consideração com sua audiência.

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Agregando o melhor da moda festa para o casual chic, a grife arrasou na passarela do SPFNn47 com suas ricas transparências, modelagens – godê e de um ombro só – e camadas de tule em contraponto a padronagens como o xadrez (reinventado), as listras a as t-shirts. Tudo muito usável e, ao mesmo tempo, elegante.  Muito  bom  e coerente  o trabalho  de  reutilização  de  tecidos  do  ateliê  na  criação  das  peças.

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Boho-chic, romantismo e modernidade se encontram no verão 2020 da marca, que apostou fortemente nas formas fluídas e na modelagem ampla de shapes retos. A parceria com a marca de sapatos Manolita agregou sofisticação às produções bem pensadas, que deixam a mulher urbana pronta para qualquer ocasião do seu dia a dia.

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A praticidade de formas retas em casacos, calças e conjuntinhos de short e camisa ganharam um equilíbrio muito bem-vindo de tons suaves, como o azul, o verde e o lilás. Gosto muito do apelo andrógino impresso em algumas marcas que desfilaram essa temporada e com Lucas Leão isso também acontece. A modelagem ombro a ombro aparece, inclusive, no guarda-roupa masculino, mostrando que o vestir pode e deve ser o mais versátil possível. Interessante a combinação dos chapéus feitos com mesmo tecido dos looks, tudo “combinandinho”.

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Iniciando com um apelo militar-moderno e indo para uma cartela de cores mais alegre, Korshi seguiu a mesma tendência inovadora de modelagens democráticas, imprimindo não só o ombro-a-ombro para os homens, como também os croppeds. As produções bem-pensadas de vestidos, macaquinhos e conjuntinhos apresentam um equilíbrio de volumes, que varia entre a parte superior e inferior, favorecendo  qualquer biótipo. Bem democrático e inclusivo, como a moda deve ser.

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Encerrando com chave de ouro minha lista de desfiles favoritos, a LED arrepiou na união de moda inclusiva e manifestação política, num momento tão delicado em que estamos vivendo e onde ações como essa se fazem necessárias. A cartela de cores se apresentou invernal, com preto, branco, cinza e caramelo, salvos alguns tons de azul royal, laranja e verde oliva que apareceram pra colorir levemente a coleção. Destaque para as modelagens de apelo esportivo, para o tricô e as sobreposições, estampadas com frases irreverentes que tornavam os looks ainda mais desejáveis.

MELHORIAS PARA O EVENTO

Falando em estrutura, aqui segue uma lista com algumas sugestões para melhoria da funcionalidade do evento como um todo:

  • melhora na climatização (ambientes muito abafados, com exceção do backstage);
  • mais variedade na praça de alimentação e preços menos abusivos (veganos não tinham opção para comer e os valores praticados eram absurdos);
  • stands mais atrativos (pouca variedade na apresentação das marcas parceiras);
  • marketings mais inclusivos – achei de péssimo gosto a forma como a Jeep excluiu os donos de outros carros, liberando estacionamento free apenas para quem tinha a marca deles de carro. Além de excludente, arrogante ao extremo;
  • local melhor localizado – a ideia de utilizar uma fábrica desativada como ponto é boa, mas, a localização da Arca é péssima, e longe de tudo, nada prático para quem precisa ir até o local todos os dias.

MAIS: Dicas e inspirações de looks com pochete

Um beijo e até a próxima temporada de desfiles!

Marcéli

Vídeo: Como ser fotografado(a) em uma semana de moda

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